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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Dissensões Religiosas

Eu gostaria de entender a lógica do silêncio,
De teu silêncio.
Minhas mensagens à ti soam como gritos no deserto,
Como o estalar de ramos de altas árvores
Em plena ventania.
Queira Deus por trás desta imensa muralha,
— Porque palavras são frágeis diante da dureza —
Algo não se perca.
É certo que não sei o que se passa neste coração
— O primeiro a entender e a buscar o outro.
Questiono-me sobre tudo isso.
Quem sabe a solidão
Seja mais leve do que as asas que buscam a liberdade,
A liberdade do voo
A escolher os caminhos.

Não estamos mais em tempos de imposições.
Deixe-me, portanto, respirar o ar rarefeito de minha fé.
Lá não vivem figueiras inúteis,
improdutivas.
Na montanha que eu habito,
o sentido das coisas tem cores,
ritmo, harmonia.
É dos lagos de água límpida que minhas redes
Vêm cheias,
E é deste pão, desta levedura de confiança.
Que minha alma se nutre.

Tudo isso é divino, por certo.
E nada terá sentido se não for vivido e sentido.
Viver é deixar que cada um, livre e liberto
Siga seu caminho,
Na certeza de que acima de nós,
Pai e filho, irmãos em criação,
Está Aquele que, sábio
E misericordioso,
Tudo sabe e tudo vê.

Frederico Ferreira


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dia das crianças

No dia de hoje, se ainda o tiveres,
Revê teu álbum de família.
Lembra-te do quanto eras simples,
Quer dizer: sem ideias sobre tudo.
Recupera na memória teus brinquedos.
Conta o quanto tinhas de amigos.
Revê teus avós.
Relembra da ternura de tua mãe para contigo.
Se ainda for possível, quando a vir, abraça-a.

Se tiveres filhos, abraça-os.
Dá aos teus mais ternura do que recebeste.
Anda descalço com eles pelo jardim.
Ponha-os na garupa de tua bicicleta
E ame estar com eles como com um amigo.
Ama cada segundo de suas infâncias,
Porque muito do que és ainda corre descalço
Pelo gramado
Porém, quase nunca se vê.
Esconde-se, com medo, na sombra de um adulto.

Frederico Ferreira

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O arado

O arado sempre me faz refletir.
Ele me faz lembrar que, a despeito de todo o avanço tecnológico,
É ele que alimenta o homem.
Aparentemente ultrapassado – simples disco sulcado de ferro –
Ele silenciosamente trabalha para preparar a terra,
Para trazer à mesa o alimento.
Ele traz consigo a nossa essência e a nossa destinação humana,
Calorosa, quente.
Como o calor que sobe dos nossos poros,
Igualmente sobe o calor dos fogões,
Dos pratos fumegantes à mesa,
Da família reunida no seu ato social e amoroso,
De nutrição indispensável para a alma e o corpo
Com olhos nos olhos.

Ao nosso lado o invisível trabalha: É a inteligência da máquina
Que nos fascina e inquieta,
A inteligência que se alimenta da nossa vida e entusiasmo
Mas que é essencialmente estéril.
Elas roubam o nosso olhar em direção ao mundo.
Nos fazem ver apenas por esta janela estreita,
Inumana,
Determinística,
Fria, 
Controlada e artificial.
O inanimado que sugere o que somos para o outro,
Na singularidade das formas e dos eventos,
Na efemeridade do excesso,
Na superficialidade do contato.


Tudo é um sonho magnífico que termina quando o corpo precisa comer.
E concluímos que as amizades e relações verdadeiras
São feitas sempre em volta de uma mesa,
No calor das nossas emoções,
Com olhos nos olhos.

Frederico Ferreira