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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Dissensões Religiosas

Eu gostaria de entender a lógica do silêncio,
De teu silêncio.
Minhas mensagens à ti soam como gritos no deserto,
Como o estalar de ramos de altas árvores
Em plena ventania.
Queira Deus por trás desta imensa muralha,
— Porque palavras são frágeis diante da dureza —
Algo não se perca.
É certo que não sei o que se passa neste coração
— O primeiro a entender e a buscar o outro.
Questiono-me sobre tudo isso.
Quem sabe a solidão
Seja mais leve do que as asas que buscam a liberdade,
A liberdade do voo
A escolher os caminhos.

Não estamos mais em tempos de imposições.
Deixe-me, portanto, respirar o ar rarefeito de minha fé.
Lá não vivem figueiras inúteis,
improdutivas.
Na montanha que eu habito,
o sentido das coisas tem cores,
ritmo, harmonia.
É dos lagos de água límpida que minhas redes
Vêm cheias,
E é deste pão, desta levedura de confiança.
Que minha alma se nutre.

Tudo isso é divino, por certo.
E nada terá sentido se não for vivido e sentido.
Viver é deixar que cada um, livre e liberto
Siga seu caminho,
Na certeza de que acima de nós,
Pai e filho, irmãos em criação,
Está Aquele que, sábio
E misericordioso,
Tudo sabe e tudo vê.

Frederico Ferreira


terça-feira, 30 de julho de 2019

Palavra II

É uma pena que enquanto as manhãs florescem
Tu ainda estejas ligado à letra,
No dogmatismo de quem pensa que bastam
Palavras escritas e
Alguma fé para
Salvar-se.
O que seria então daquele que,
Abandonado dos dizeres,
Imerso na solidão da noite
Com olhos abertos e coração
Sereno, contempla o céu e as estrelas
Certo de que está sendo ouvido?
Ou então aquela que, famélica,
Ao amamentar seu filho
Com as poucas reservas e palavras que tem
porque simples,
Dá graças ao vê-lo saciado, pois
sabe que,
Junto com seu leite,
Deu também amor que,
como a palavra,
nutre e vivifica a Alma?

Para que servem, então, as palavras?
Certamente não para contender pela fé,
Não para dissentir,
Mas para trazer para perto de si o que é nobre,
Ou para fazer brilhar a Luz como o próprio Criador.


Não fiques, portanto, a decifrar por tanto tempo
Códigos humanos.
A Palavra Divina está escrita na obra
Dele mesmo
Com sua caligrafia de beleza, harmonia e
Amor.

Frederico Ferreira
Para J.L.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sol

O pôr do Sol lembra-me as tardes
Em que meu olhar contempla o infinito:
A paisagem quase interminável do horizonte,
Limitada pelo astro imenso
A marcar dias, noites, eternidades.
Meu coração brilha junto com Ele
E não sinto medo algum do porvir.

O Sol dá-me a certeza de que não estou sozinho.
A minha Grande Estrela foi criada por um Ser Divino.
Não há, portanto, o que temer.
Seus raios aquecem meu coração
Como para quem brilha em si uma nova esperança.
Sua luz, dá-me força para vencer qualquer coisa.
— O Sol é senhor do tempo.

Quando estou longe d’Ele,
Quando o crepúsculo bate sobre meus olhos,
Para mim, não é a noite que se inicia,
É um novo amanhecer que tarda.

A treva não me incomoda,
Pois a Fé ilumina meus passos.
Eu sei que ELE É,
Que ELE ESTÁ.
E assim, onipresente, me acompanha.

Frederico Ferreira

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Embarcação

Navegamos à sós, pequenos barcos levados inocentes pela corrente? 
Oh quanta coragem para vencer o infinito! 
O mar é a própria metáfora da imensidão do universo. 
Sopram os ventos, anunciam-se as tempestades, 
Como se estivéssemos prontos a sucumbir a qualquer instante, 
Perecíveis que somos. 
O Sol nos guia, como a própria força que nos une, 
Plantas e homens numa mesma direção: A Luz. 
A certeza do êxito, no entanto, não está fora. 
Está no barco 
Que repousa sobre a água, a enfrenta, transpondo barreiras. 
Para ir adiante, o capitão tem que ter confiança em sua embarcação, 
Em seu motor que, como o coração em seu peito, 
Bombeando sangue e força aos seus braços, 
Não pode também parar. 

Qual direção a seguir? Qual a rota 
Quando não se sabe ao certo onde se vai chegar? 
Seguir as estrelas? 
Olho para o céu, azul como um manto divino, 
Como um convite à paz para os corações cheios de perguntas, 
E vazios de respostas. 
Volto às correntes, 
Aos ventos que sopram, renovando o ar. 
Em minha embarcação pulsa a alma imortal, a coragem e a fé, 
A vontade de buscar, de atravessar o vazio. 
O vazio de respostas que, 
Quando a viagem termina, já as temos todas. 
Porque viver não é nada além de cruzar o mar desconhecido 
Vencendo intempéries, 
Suportando tormentas, 
Mas com a indelével certeza de novas enseadas, 
Praias tranquilas e terra firme 
E a certeza do dever cumprido. 

Frederico Ferreira

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Voar

Qual será a certeza do pássaro 
Quando ensaia o primeiro voo de sua 
Vida? 
O que talvez o mova
Entre o abismo desconhecido, a morte 
E o sonho 
Sustentado pelo desejo de liberdade? 
A certeza em suas asas!
Assim sonha a lagarta que 
Ainda não as conhece. 

Ela rasteja e passa lentamente 
Pela vida 
Guardando-se dos acidentes, 
Preservando-se, 
Galgando e amadurecendo no tempo 
O seu destino. 
Empós aguardar o momento oportuno, 
No vir a ser o que se é 
Em sua essência, 
Seu corpo volita. 

Para voar, é preciso ter fé. 

Frederico Ferreira

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Joana D'Arc

Das vozes que dos ventos sopram,
Das forças que da Terra brotam,
Campos de flores e perfumes,
Da treva que valoriza o lume,
Surge missão divina, de liberdade
A provar da Santa a lealdade.

Armadura de fé
Espada de confiança
Pôs-se logo de pé
Exercendo liderança.

Sem intenção de poder ou fama,
Fez da luta sua dedicação.
Fez-se mártir, Santa Joana
Iluminada por divina inspiração.

Sem temer o futuro ou destino,
Na fogueira foi queimada.
Com o fumo, sua Alma foi subindo,
Mas deixou sua semente plantada.

Qualquer bom propósito na vida é importante.
Pega tuas armas. Sê relevante,
Independentemente do que se tem de resultado,
As forças do bem estarão ao teu lado.
Eleva, portanto, o coração e o pensamento.
Faz de ti, da vida, um instrumento.

Frederico Ferreira.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Notre-Dame de Paris

Dos símbolos milenares, das formas seculares,
De sinos e criptas e torres e altares
És esplendor vivo. — Criação exuberante!
A apontar para o céu de estrelas cintilante.

És muro de pedra entalhada,
— Trabalho, paixão e dor —
Que do cinzel se fez arte revelada.
Minúcias e complexidades da Alma
A reverenciar o Criador e a Mãe do Salvador.

Vitrais que difundem Luz
Como espectros que nos acompanham.
Que fazem cultivar a Fé
Que brota nos pés da Cruz.

Joelhos que se curvam,
Corações que transbordam
Preces que alcançam as alturas
Como suspiros que sobem ao céu.

São olhares esperançosos
Que refletem a luz das velas.
São corações miúdos, como pequenas capelas
A entoar cânticos ao Senhor.

És a semente da Cidade Luz,
Marco zero da Luminosidade.
Fanal de almas que buscam a Verdade
A tatear, na treva da matéria,
Os passos abençoados de Jesus.


Frederico Ferreira
 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Trajetória II

I

Eu caminho sozinho pelos desertos de minhalma.
No meio dele, dunas imensas,
Paixões imensuráveis,
Que se movimentam à força dos acontecimentos.

Meu deserto sou eu.

Um livro marca o roteiro que conduz ao objetivo.
As dunas se movimentam.
Não obstante, quando olho para trás,
Vejo todos os meus passos meu passado!

É ele que me afasta de meu destino.

II

Eu não posso temer cruzar as minhas vastidões.
Não me pode vencer o cansaço de descortinar-me.
Guardo comigo histórias dos que já estão adiante na descoberta de si.
Eles me inspiram e dão-me confiança à cada passo.

III

Oásis, oásis múltiplos!
Ilhas de esperança e refazimento desde os confins de minha história.
Deixa-me refrescar as feridas dalma em tuas águas claras
Enquanto o vento brando
Recupera reminiscências e a confiança.

Já ouço a voz consoladora do Rabi,
Contemplo a beleza dourada dos lírios;
Assombra-me a fé miúda e forte,
Sinto a amizade e o amor puros.

Ao pé de Ti Mestre,
Tudo é recomeço, esperança
E continuidade. 

Frederico Ferreira