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terça-feira, 8 de maio de 2018

Poema de Aniversário

São tão eloquentes as manifestações de carinho!
Meu coração se assombra
Pelas palavras de amor e amizade,
Votos de realizações e felicidade.
Minha alma quase já não cabe em meu corpo.
Chego a pensar: o que seria uma vida sem amigos?
Como seria possível, apesar de toda a beleza do mundo,
Ter de percorrer ainda passagens inusitadas cheias de cascalhos,
Montanhas de pedra bruta
E floresta densa e a escuridão
Da noite se,
Junto de nós, não houvesse ninguém?

Amigos queridos,
Sua presença completa a minha vida.
Ao lado de mim,
Vejo tantos braços que se apoiam
Tantos ombros que cedem espaços a lágrimas e
Juntos, confortando-nos, todos caminhamos
Adiante.

Ao passo que o corpo se fragiliza,
A vista escurece,
O sentimento se fortalece e
A alma, se harmoniza.
Porque então temer o futuro?
Bastaria olhar no fundo dos olhares amigos
E recolher, da chama que neles brilha,
A luz do caminho que temos que percorrer.

Frederico Ferreira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Se sorriso tivesse nome, seria Clarice

Tudo deve ter começado há mais ou menos 44 anos, ou melhor, o tempo de minha vida inteira.  Alguns dariam a isso o nome de acaso. Eu prefiro crer que somos almas que se buscam porque se amam e ser o caso de bastar apenas uma circunstância para pôr-nos todos juntos novamente, tudo no tempo e lugar certos. Não teria durado essa convivência carinhosa entre nossas famílias por tanto tempo; não seria possível continuar uma conversa depois de meses e meses sem se ver, mas com a mesma desenvoltura, com a harmonia de sempre, sem sobressaltos, se não houvesse ali uma profundeza de sentimentos. E esse caso particular acontece com todos os amigos verdadeiros. Não estamos de passagem pela vida do outro. Não somos como folhas caídas que se juntam a esmo sobre a relva. Somos ramos que juntos se protegem das intempéries e que fazem parte de um mesmo tronco. Não somos como gotas que caem desatentas dentro de uma mesma poça. Juntos formamos o filete de água que, vibrando em uníssono, formamos um grande rio.
Quando nasci, eles eram quatro.  Hoje refletindo, e acho curioso ver crianças na sua aversão natural a frequentar a casa de idosos – porque, segundo eles, não há nada para fazer –, percebo que para mim era o contrário, adorava estar lá. 
Cris, homem muito simples, não tinha carro. Adorava andar de bicicleta, e tinha uma daquelas robustas, para durar umas quatro gerações. Pneus grossos, macia, sem luxo algum, mas que parecia deslizar sem qualquer esforço sobre as ruas de paralelepípedo de Lorena.  Meu pai apelidou-a de Jipão.  Não apenas isto era singular em sua casa, mas também as varas de pescar de bambu sem molinete, as ferramentas antigas, o seu sotaque do Sul de Minas e o café tomado em canequinhas de ferro, laqueadas, que queimavam a mão da gente e davam um gosto especial de estar lá ouvindo as suas histórias.
D. Alice, a mãe de Clarice, morava com eles e era a avó de Maia. Esse era o seu apelido, no entanto só a tratávamos assim.  Embora bem idosa, era muito ativa. Adorava cozinhar e coser. Era através da costura que D. Alice e Clarice ajudavam nas despesas domésticas e complementavam a módica aposentadoria da Fábrica Pres. Vargas de Piquete. Este era o seu afazer, mas era na cozinha que a verdadeira vocação das duas se revelava. D. Alice, que foi casada com um sírio, aprendeu e passou adiante o tempero e o jeito de fazer as comidinhas que hoje são, para esse particular, a minha referência.
Nos finais de semana, nos reuníamos com frequência. Eu o via cuidando de suas crias, seus passarinhos e dois vira-latas, conversávamos sobre as pescarias, as histórias da fábrica e de como ele a conheceu. Aos poucos, éramos envolvidos pelo cheiro que exalava da cozinha: o café que foi passado, a esfiha que saiu quentinha ou um bolo para acompanhar o café. Inevitável sentar-se à mesa e passar a assuntos comuns a todos.
Eu e minha irmã os considerávamos como nossos terceiros avós, avós de coração. Foram eles que nos ensinaram que os nossos cuidados e carinhos podem ser estendidos a outros, como o vento que espalha docemente o orvalhar das cachoeiras e cuja umidade faz brotar as flores dormentes nas sementes perdidas nos lugares mais recônditos.
Ao longo dos anos, a vida foi escolhendo os momentos certos para desenlace de todos eles, exceto o de Clarice. No entanto, aquela alma resignada não encontrava força para queixar-se. Preferiu olhar adiante, confiante no futuro que somente aqueles que têm fé são capazes de sentir e entender. A casa bem cuidada, as flores vibrantes, a toalha sempre limpa e o sorriso inteiro, pleno nos faziam ter a convicção de quanto a vida é valorosa, não importando sob que condições.
A vida me levou por caminhos muito distantes. Não a visitava mais há muito tempo. Aos poucos a saúde dela foi piorando, junto com as dores e as limitações naturais da velhice. Eu tinha certeza de que ela estaria bem, apesar de tudo.
Há poucas semanas recebi a notícia da sua partida. Desde daquele dia, eu não pude evitar olhar para o céu e buscar nele as minhas referências do passado. Junto com o Príncipe e sua rosa, procuro ardentemente uma outra estrela que sorri.

Frederico Ferreira