O que parece ser a Democracia?
Fim e não meio?
Gostaria que fosse,
Porém, aquele conto de fadas que todos escutam
E almejam sua materialização,
Não é senão motivação filosófica para que
Poucos comandem muitos,
E que, a favor do que se acostumou chamar de “bem comum” – que quem afinal? –
Somos obrigados a obedecer cegamente.
A Democracia não é apanágio de leis,
De emaranhados de conceitos
Em que poderosos se apoiam para justificar
Benefícios, solturas
De prisioneiros,
Aumentos de seus próprios salários.
Não! Democracia é vontade da maioria,
Seja ela absoluta ou não.
Eu ouço conversas de gente espantada.
Como entender, portanto, estes acontecimentos?
Como ficar neutro e deixar correr o sangue
Misturado com lágrimas,
A vista turva embrulhada pela treva do negativismo,
Apenas atingida pelos raios do porvir
Que, pelos ocorridos recentemente, nada trouxeram senão
Trevas e tempestade,
Confrontos e um país dividido.
Como somos manipulados!
Como somos obrigados a crer nesta verdade demagógica e absurda,
De que os Poderes estão lá para nos representar!
E somos milhões!
Milhões de árvores secas que estagnaram
No solo bravio da indiferença.
Frederico Ferreira
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quarta-feira, 28 de março de 2018
sábado, 13 de janeiro de 2018
Nas ruas desertas do meu sonho
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
Ninguém lá está, senão os mendigos.
Miséria carregada de tristeza e abandono,
Como fantasmas vivos
De mãos sujas e alma turva.
A rua é sua penúltima morada
Antes da morte definitiva.
— Se é que podemos afirmar que estão vivos.
A bebida os consome por dentro,
Mas é a droga que os enlouquece,
que os
cerra na sua loucura,
Onde não há fome ou frio.
Aceitam, assim, a viagem sem volta.
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
Dorme porque sua alma está entorpecida.
As contas para pagar,
os impostos
— muitos impostos,
O medo do desemprego,
a
violência,
Entorpecem a alma do meu país.
Ninguém olha para a janela ao lado.
Sequer abrem a janela do carro
Para ver o que se passa
com os
mendigos
— Que ninguém
quer ver.
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
E, enquanto dorme,
O dinheiro some — ou dizem que some.
Os risos daqueles que roubam
dos que
aceitam
tudo
em
silêncio,
Invade a noite.
Invade o dia.
Entra pelas estações e os anos.
Mas os jasmins continuam a florir.
E as damas-da-noite continuam a cheirar
Para adocicar o sono dos que
dormem.
Meu sonho é às vezes interrompido por gargalhadas.
Vejo na penumbra que os colarinhos
estão entreabertos.
As gravatas maldispostas — relaxadas.
Bocas que ruminam como porcos os seus fartos jantares
E exibem suas panças gordas
— como gordos
cachaços —
os reis da
pocilga!
Como são insaciáveis!
Como o dinheiro que lhes é entornado como lavagem
para consumirem
e
deitarem
e se
locupletarem,
jamais
é suficiente!
E depois desta orgia,
Colocam suas cabeças em seus travesseiros de pluma
macios,
altos,
como
sua arrogância
Para compensar o peso de suas consciências.
Nas ruas desertas do meu sonho,
São seus próprios demônios que os perseguem,
e nenhum
outro.
Não dormem sem sentir o medo que apavora
o da sombra das
grades,
da pobreza que
abominam ou ainda,
o do frio
punhal da traição.
Contam maços de dinheiro à noite.
Pacotes e pacotes de baiacus e de
onças
pintadas.
Animais em cativeiro.
Usam apelidos, falam baixo, arrumam esconderijos
Porque paredes têm ouvidos.
Seu melhor amigo é
também
seu
inimigo.
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
E os mendigos cantam e dançam
Enquanto toda a gente dorme e sonha
Junto comigo
dias melhores.
Mas não há ação. Apenas respiramos
imóveis.
Todos dormem.
Dormem.
Frederico Ferreira
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