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quarta-feira, 28 de março de 2018

Democracia

O que parece ser a Democracia? 
Fim e não meio? 
Gostaria que fosse, 
Porém, aquele conto de fadas que todos escutam 
E almejam sua materialização, 
Não é senão motivação filosófica para que 
Poucos comandem muitos,
E que, a favor do que se acostumou chamar de “bem comum” – que quem afinal? – 
Somos obrigados a obedecer cegamente. 

A Democracia não é apanágio de leis, 
De emaranhados de conceitos 
Em que poderosos se apoiam para justificar 
Benefícios, solturas 
De prisioneiros, 
Aumentos de seus próprios salários. 
Não! Democracia é vontade da maioria, 
Seja ela absoluta ou não. 

Eu ouço conversas de gente espantada. 
Como entender, portanto, estes acontecimentos? 
Como ficar neutro e deixar correr o sangue 
Misturado com lágrimas,
A vista turva embrulhada pela treva do negativismo, 
Apenas atingida pelos raios do porvir 
Que, pelos ocorridos recentemente, nada trouxeram senão 
Trevas e tempestade, 
Confrontos e um país dividido. 

Como somos manipulados! 
Como somos obrigados a crer nesta verdade demagógica e absurda, 
De que os Poderes estão lá para nos representar! 
E somos milhões! 
Milhões de árvores secas que estagnaram 
No solo bravio da indiferença. 

Frederico Ferreira

sábado, 13 de janeiro de 2018

Nas ruas desertas do meu sonho

Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
Ninguém lá está, senão os mendigos.
Miséria carregada de tristeza e abandono,
Como fantasmas vivos
De mãos sujas e alma turva.
A rua é sua penúltima morada
Antes da morte definitiva.
— Se é que podemos afirmar que estão vivos.
A bebida os consome por dentro,
Mas é a droga que os enlouquece,
          que os cerra na sua loucura,
Onde não há fome ou frio.
Aceitam, assim, a viagem sem volta.

Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
Dorme porque sua alma está entorpecida.
As contas para pagar,
          os impostos — muitos impostos,
O medo do desemprego,
          a violência,
Entorpecem a alma do meu país.
Ninguém olha para a janela ao lado.
Sequer abrem a janela do carro
Para ver o que se passa
          com os mendigos
          — Que ninguém quer ver.

Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
E, enquanto dorme,
O dinheiro some — ou dizem que some.
Os risos daqueles que roubam
dos que aceitam
tudo
em silêncio,
Invade a noite.
Invade o dia.
Entra pelas estações e os anos.
Mas os jasmins continuam a florir.
E as damas-da-noite continuam a cheirar
Para adocicar o sono dos que
          dormem.

Meu sonho é às vezes interrompido por gargalhadas.
Vejo na penumbra que os colarinhos
          estão entreabertos.
As gravatas maldispostas — relaxadas.
Bocas que ruminam como porcos os seus fartos jantares
E exibem suas panças gordas
— como gordos cachaços —
os reis da pocilga!
Como são insaciáveis!
Como o dinheiro que lhes é entornado como lavagem
          para consumirem e
                    deitarem e se
                              locupletarem,
          jamais é suficiente!
E depois desta orgia,
Colocam suas cabeças em seus travesseiros de pluma
macios,
altos,
como sua arrogância  
Para compensar o peso de suas consciências.

Nas ruas desertas do meu sonho,
São seus próprios demônios que os perseguem,
e nenhum outro.
Não dormem sem sentir o medo que apavora
o da sombra das grades,
da pobreza que abominam ou ainda,
o do frio punhal da traição.
Contam maços de dinheiro à noite.
Pacotes e pacotes de baiacus e de
onças pintadas.
                    Animais em cativeiro.
Usam apelidos, falam baixo, arrumam esconderijos
Porque paredes têm ouvidos.
Seu melhor amigo é
também
seu inimigo.

Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
E os mendigos cantam e dançam
Enquanto toda a gente dorme e sonha
          Junto comigo
                    dias melhores.
Mas não há ação. Apenas respiramos
imóveis.
Todos dormem.
Dormem.

Frederico Ferreira