quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Questionamentos

Entender é a palavra.
Entender!
Entender qual a força que nos une
Ainda que guardemos, dentro de nós, tamanha intemperança.
Os opostos se manifestam no mundo,
Como metáforas aterradoras!

São vales que desafiam montanhas
Águas que da pedra brotam
É a terra que, de suas entranhas,
Através dos vulcões lavas soltam.

São rios que, em suas torrentes,
A desafiar a seca que se inicia,
Vertem a água que propicia
O verdejar do solo, em beleza envolvente.

Florestas exuberantes, de infinita beleza
Que, a despeito da serra que a fere,
Há uma força intrínseca da vida que tudo gere
E que sempre faz recuperar sua grandeza

Entender, volto a palavra
E não sei onde vou chegar
Neste Brasil de miseráveis, de pessoas
Esperançosas
Há tantos vultos, gente mal-intencionada, viciosas que
Para defender a igualdade, criam
Divisão.
Antes, éramos uma única nação.
Agora, somos dezenas de grupamentos!
Cada qual com sua espada, em regimentos
A lutar na arena dos ideais, em revolução.

O que fazer, entretanto?
Oh Cabral! Enxuga-me o pranto se
Ao longe, das caravelas,
Não vislumbraste um povo bom e sonhador
E árvores que, como capelas,
Já guiavam olhares para o Alto,
Ao Criador!

O que fazer, ante o irremediável porvir?
Digladiarmo-nos, talvez! Mas, ao refletir,
Não perder de nós o que há de bom:
A vontade de crescer, mas de conseguir unir, das
Diferenças, a construção.

Sejamos, pois, simplesmente brasileiros!
Amemos a Pátria do Cruzeiro.
Empunhemos a bandeira verde-louro
E conservemos, para o futuro, nosso tesouro:
— A força da nossa união.

Frederico Ferreira

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Vontade

Se tudo o que bastasse fosse simplesmente
vontade!
Ao longe observo, na imensidade dos campos incultos,
Vendavais que movimentam a superfície
Tentando atacar o que no fundo 
É nobre – Aquilo que lá plantei.

Levanto os olhos para os céus,
O coração aflito.
Aguardo com esperança a chuva da temperança,
Chuva tranquila
Que favorece o brotar das sementes,
Com sólidas raízes.
Também aguardo o florescer e o frutificar do que semeei
Na vastidão daquele coração.

Como dói! Como dói simplesmente imaginar
que pouco se salve.
Na vida do homem, como na semeadura da terra,
Pouco vale para o florescer a vontade daquele
que da senda cuida.
Tudo será conforme a terra, ou o coração
que a semente acolhe.

Frederico Ferreira

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Palácio Imperial

De que lado começo meu poema?
De que lado se, ao contemplar-te, não vejo senão escombros?
— História viva transfigurada em cinzas.
Não restou nada — nem mesmo para nossa nostalgia —
Senão as tardes de domingo ensolaradas
E a cor de sonho amarelo ocre de tua fachada!

Foram-se os Príncipes, os Imperadores. Foi-se a Princesa!
Já não mais saberemos como viveram os ícones de nossa história.
Oh, que passado de glórias!
Oh! Que presente de ruinas!
Em tua fuligem um pouco de todos nós subiu aos céus,
Na vertigem de destruição que nós próprios engendramos.
Irresponsáveis que somos com o passado,
Imperdoáveis que seremos para o futuro!

Oxalá que tudo em ti fossem as sarças que,
Ao fogo, não se consumiram!
— Sagrado para o Brasil que eras e que sempre serás.
Assim como o Cristo,
Projeta tua sombra sobre nós, Palácio Imperial!
Apazigua nossa alma jovial e irresponsável,
E continua a sustentar os alicerces de nossa Pátria
Com as tuas paredes. 

Frederico Ferreira

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Nossa Terra

Os séculos passam. No entanto as palmeiras 
Sobrevivem,
Assim como os sabiás. 
Parecem até ignorar as loucuras e paixões desse povo. 
Não lhes tocaram os rios de sangue e lágrimas 
Ao longo da história. 
Estão todas bem assentadas nesta terra 
Enquanto os sabiás cantam alegres, cheios de esperança. 

A filosofia nos mata,
Assim como as teorias econômicas. 
Nós digladiamos nas ruas da cidade, 
Ameaçamos os campos. 
Blasfemamos contra a terra que nos acolhe, 
A maldizemos como a uma mãe que abandonou 
Sua prole, mas não! 

Apesar dos movimentos humanos, 
Nossa terra continua forte. 
Sustenta as florestas e montanhas 
Corre inabalável no seu seio a água límpida das cachoeiras. 
Passará pelas tempestades 
Do nosso coração bravio 
E nossas torrentes de poder e horror. 

Frederico Ferreira.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Voar

Qual será a certeza do pássaro 
Quando ensaia o primeiro voo de sua 
Vida? 
O que talvez o mova
Entre o abismo desconhecido, a morte 
E o sonho 
Sustentado pelo desejo de liberdade? 
A certeza em suas asas!
Assim sonha a lagarta que 
Ainda não as conhece. 

Ela rasteja e passa lentamente 
Pela vida 
Guardando-se dos acidentes, 
Preservando-se, 
Galgando e amadurecendo no tempo 
O seu destino. 
Empós aguardar o momento oportuno, 
No vir a ser o que se é 
Em sua essência, 
Seu corpo volita. 

Para voar, é preciso ter fé. 

Frederico Ferreira

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Lealdade

De todas as praias selvagens 
Emolduradas por montanhas e pequenos vales, 
É em ti que eu habito. 
Tu me acolheste com carinho 
Eu, gaivota indomável, de pensamentos 
Infinitos, 
De sentimentos 
Infinitos. 
Ao largo de ti tenho confiança nas correntes: Meu voo 
é sempre seguro. A mim 
Não me inquietam as tempestades. 
Pouso em tua areia tenra, 
Teu calor me acalma. 

Neste movimento de cores, forças e de sons 
Que é o mundo, 
Tuas mãos carinhosas me envolvem 
Nas incertezas e desafios que nos acompanham. 
Oh! Carinho doce, 
Pérola de vida a refletir esperança 
Nos primeiros raios da Aurora, 
Enquanto durarem as forças destas asas,
Estarei contigo.
E nossa história será lembrada 
Eternamente,
Pelas ondas que não cessam 
Jamais. 

Frederico Ferreira

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Cuidar de seu jardim

Quanta esperança depositada nas gotas
Que sutilmente molham as plantas.
O olhar atento, buscando lavar a poeira das folhas
Na manifestação sublime do carinho de quem cuida,
É como o derramar de sentimento
Que liberta da beleza as secas pétalas,
Como dores cristalizadas
Remoídas de Sol a Sol e
Amareladas pelo tempo.

Talvez esta metáfora da vida,
Que o cuidar de seu jardim,
Seja também o cuidar de quem se ama.
E que o regar com o olhar, com o zelo,
O adubar com amor para florescer o porvir
E curar folhas secas com a água do sentimento,
Carreguem em si a mesma essência:
Amar e cuidar das plantas, dos jardins, da vida, das pessoas,
É como transbordar-se e sentir-se parte
De um mesmo todo em harmonia
Na lei única de Amor que em tudo pulsa e
Tudo muda.

Frederico Ferreira

domingo, 24 de junho de 2018

Escrever com o coração

Escrever com o coração
E destilar na lágrima e na esperança
O néctar do sentimento.
Tudo na vida é verso, ritmo e harmonia
Palavras que calam na Alma
Profundas e eternas.
Sinestesia de lembranças,
Bruma do amanhecer,
Beleza, ímpeto, nostalgia...


Escrever com o coração
E vivenciar a simplicidade e verdade das coisas
Como elas são e
Sentir e
Crer.
Crer que da dureza do mundo
Resulta o brilho da Alma
— Vaso dourado forjado na dor.
E que no solo impuro do sentimento
Entre pedra, lama e poeira
Sempre nasce uma flor.


Frederico Ferreira

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Propósito

Eu penso seriamente em deixar de lado as coisas
Que simplificam minha vida.
Nada de comida pronta,
Mangueiras com revolveres de esguicho,
Canetas esferográficas ou ainda
Barbeadores descartáveis.
Ninguém sabe, senão eu, o que é melhor para mim.

Preparar a própria comida deve ser algo
Sagrado.
Como quem reconhece o esforço do solo
Para produzir.
Não apenas dele, mas também de quem se levanta cedo
E trabalha em sua quinta.
A comida elaborada aos detalhes tem mais sabor,
Talvez o mesmo sentido por aquele que vê seus tomates
Brotarem em sua horta.

Já na hora de molhar as plantas,
Um dispositivo mecânico não adivinhará a intensidade
Da água
Que meu jardim precisa ser regado.
Autênticas torneiras são apenas aquelas da Natureza
Que sabem, de uma mesma fonte,
Verter a torrente nas quedas
E os respingos delicados ao derredor.
— E tudo resta verde e lindo à sua volta.

Para escrever, nada de computadores,
Máquinas de escrever ou canetas que,
De tão banais, banalizaram a escrita.
Não! Cada palavra tem que ser desenhada e sentida
Na ponta da pena,
No ímpeto da mão que escreve,
Nos músculos que se movimentam,
— Quase que involuntariamente —
Sob o comando do coração.

No mais, quero usar até navalhas,
Intrépidas e rudes — Instrumentos de precisão —
E que me remetem a um tempo de avôs,
De homens que andavam seguros em seus sapatos
Quando a vida era ainda desafiante e trabalhosa para tudo,
E cujas tecnologias os faziam ser presentes em tudo,
Porque viver exige seu esforço, seu zelo e seu propósito
E porque foi assim que escolhi.

Frederico Ferreira

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Boldo

Foi só agora que me dei conta de que mataram o pé de boldo. Na semana passada, o movimentar das máquinas, o remover a terra bruta na descoberta do solo inculto, o aplainar imperfeições naquilo que a natureza julgou perfeito, não me deixaram pensar que aquele pequeno arbusto colado ao terreno de minha casa, estivesse ameaçado. 

Entre os escombros, já havia visto o mamoeiro jovem, com folhas ainda verdes, relegado ao abandono. Sim, aquele minúsculo pedaço de terra ao lado, pequeno canteiro, oásis no meio de um deserto improdutivo, foi por algum tempo útil. Produziu alfaces orgânicas e outras coisas boas de se comer e também ajudou a curar muitas dores de cabeça da vizinhança. Por último, o mamoeiro que ali florescia, de sementes jogadas a esmo, mas que não teve tempo de mostrar a que veio. 

Quando aqui chegamos, este terreno ainda abrigava palmeiras onde um pica-pau, livre, fez sua casa. Certamente, deveria ter outras, nômade que era, uma vez que o víamos apenas nos meses de junho e julho, tornando-se mais presente por seu canto.  Era bom ouvi-lo no final do dia. Ele dava um ar bucólico ao que já era natural e, por sua beleza e simplicidade, também nos trazia alegria.  Quis Deus, no entanto, que o pica-pau abandonasse aquela casa e, à força dos ventos de destroem casas de pássaros e de homens, destruiu também a dele. 

Como havíamos dito, por sua natureza leve e desapegada, não se deixou esmorecer e do trabalhar por sua sobrevivência, construiu uma nova casa na floresta o lado.  Sei disso porque estamos em junho.  Sorte diferente teve o pé de boldo e eu. Agora, no lugar da nova casa do pica-pau, um lugar verde e protegido e que vê-lo da nossa janela já apaziguava a nossa alma nos momentos de amargura, verei paredes e janelas e telhados. 

No entanto, até quando durar a chama de vida do meu amigo e viajante pássaro outonal, seguirei aguardando seu canto. 

Frederico Ferreira