O vento frio da noite sopra sobre o meu rosto.
Estrelas ao longe – que nada mais são do que
Luzes que transbordam de si mesmas no espaço escuro e infinito –
Dão-me a noção exata da vastidão e perenidade da vida.
Como tudo é tão imenso!
Como o perfume simples das flores do campo,
Ou a brisa do mar,
No vaguear lento e interminável das ondas que
Transportam meu pensamento ao longe
Me consolam!
O vazio que às vezes toma conta de minh‘alma
É vastamente preenchido por este movimento contínuo da vida.
Na natureza, não há temores sobre o amanhã.
Mesmo no caos - que o homem,
Efêmero na sua apreciação e que
Julga explicar tudo negativamente por sua visão adstrita -
Repousa a ordem que não se vê.
A ordem harmônica do Universo.
Universo inacabado, porque se movimenta e se transforma.
Dentro de mim pulsa a origem divina das coisas;
Fora de mim, a brisa bate em meu rosto e
Sinto todo o movimento à minha volta.
O vazio que sinto é a vontade da alma que
Quer ser livre e participar de tudo isso:
A de ser também brisa que movimenta e transforma.
Presa no corpo, ela ainda não consegue senão apenas sentir
E sonhar.
Frederico Ferreira
sexta-feira, 13 de abril de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
Democracia
O que parece ser a Democracia?
Fim e não meio?
Gostaria que fosse,
Porém, aquele conto de fadas que todos escutam
E almejam sua materialização,
Não é senão motivação filosófica para que
Poucos comandem muitos,
E que, a favor do que se acostumou chamar de “bem comum” – que quem afinal? –
Somos obrigados a obedecer cegamente.
A Democracia não é apanágio de leis,
De emaranhados de conceitos
Em que poderosos se apoiam para justificar
Benefícios, solturas
De prisioneiros,
Aumentos de seus próprios salários.
Não! Democracia é vontade da maioria,
Seja ela absoluta ou não.
Eu ouço conversas de gente espantada.
Como entender, portanto, estes acontecimentos?
Como ficar neutro e deixar correr o sangue
Misturado com lágrimas,
A vista turva embrulhada pela treva do negativismo,
Apenas atingida pelos raios do porvir
Que, pelos ocorridos recentemente, nada trouxeram senão
Trevas e tempestade,
Confrontos e um país dividido.
Como somos manipulados!
Como somos obrigados a crer nesta verdade demagógica e absurda,
De que os Poderes estão lá para nos representar!
E somos milhões!
Milhões de árvores secas que estagnaram
No solo bravio da indiferença.
Frederico Ferreira
Fim e não meio?
Gostaria que fosse,
Porém, aquele conto de fadas que todos escutam
E almejam sua materialização,
Não é senão motivação filosófica para que
Poucos comandem muitos,
E que, a favor do que se acostumou chamar de “bem comum” – que quem afinal? –
Somos obrigados a obedecer cegamente.
A Democracia não é apanágio de leis,
De emaranhados de conceitos
Em que poderosos se apoiam para justificar
Benefícios, solturas
De prisioneiros,
Aumentos de seus próprios salários.
Não! Democracia é vontade da maioria,
Seja ela absoluta ou não.
Eu ouço conversas de gente espantada.
Como entender, portanto, estes acontecimentos?
Como ficar neutro e deixar correr o sangue
Misturado com lágrimas,
A vista turva embrulhada pela treva do negativismo,
Apenas atingida pelos raios do porvir
Que, pelos ocorridos recentemente, nada trouxeram senão
Trevas e tempestade,
Confrontos e um país dividido.
Como somos manipulados!
Como somos obrigados a crer nesta verdade demagógica e absurda,
De que os Poderes estão lá para nos representar!
E somos milhões!
Milhões de árvores secas que estagnaram
No solo bravio da indiferença.
Frederico Ferreira
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Ode ao Mar
Que altares divinos a Natureza nos revela?
São matas exuberantes,
Copas altas no céu entrecortadas,
Cadeias de montanhas amontoadas
A desafiar olhares extasiantes.
Vejo as estrelas ao olhar para o céu.
Planetas variados,
Miríades de mundos espalhados
No Universo infinito em seu escuro véu.
Mais perto de mim, outro universo.
Desta vez, finito no acabamento,
Porém cheio de beleza, que o faz diverso.
Me marejam os olhos ao observá-lo por um momento.
Quanta alegria ao ver o mar sinto comigo!
Histórias de família, férias intermináveis.
São facetas da vida, lembranças memoráveis,
Que amá-lo toda a vida parece ser um tempo exíguo.
Tento o Sol como astro matutino,
Irradiando luz, para a vida renovar,
O mar é o grande espetáculo Divino,
Tendo a areia da praia como altar.
Minha vida não poderia ter outra destinação.
É algo que vem de dentro, é inexplicável.
Enche-me de alegria, amor e emoção,
E faz reverberar na alma este amor inesgotável.
Frederico Ferreira
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
A granja
Num imenso balcão,
O tempo passa e não conseguem perceber que a morte se aproxima.
Embora ventilado e cheio de verde à sua volta,
Galinhas disputam.
Este é um ambiente diverso do que se vê normalmente.
Não são todas iguais, brancas.
Há galinhas de todos os matizes:
vermelhas,
pretas,
marrons,
brancas.
No seu linguajar monossilábico,
Parecem discutir.
Uma tenta cacarejar mais alto do que a outra.
Estufam o peito.
Batem asas.
Brigam entre si,
querendo dar
razões às suas ideias,
Quando não percebem que são todas elas,
simplesmente,
galinhas.
todas,
condenadas, à princípio.
Um homem de botas as visita.
Veem nele um tipo estranho:
O homem
que traz a comida
e a
água — o que o transformou em seu líder.
Ele também anota números em uma placa,
Como que em uma contagem regressiva para o abate.
Elas, porém, não desconfiam de nada,
Porque veem as palavras, mas não as entendem.
Elas veem os números, mas não sabem contar.
Ninguém ensina galinhas a ler.
Por esta falta em sua instrução,
Não imaginam elas que as cercas são arames frágeis,
fáceis de se romper.
Ou ainda que,
a placa que diz:
SAÍDA,
Pode lhes
valer a vida.
Mais ao fundo, algumas doentes,
Aleijadas pelo rompante de suas ideias,
Porém ignoradas pela massa,
Morrem solitárias.
Dir-se-ia serem talvez as poetas naquela língua,
ou ainda, pensadoras daquele lugar
Que, do empirismo do seu pensamento,
Almejaram mudar seu destino.
Mas tudo continua monossilábico.
Pensamentos e palavras rasas,
Superficiais,
Que selam fatalidades;
Ou ainda que as mantém confinadas.
O tempo passa e não conseguem perceber que a morte se aproxima.
Mas porque minha preocupação com tudo isso?
Galinhas não votam.
Frederico Ferreira
sábado, 13 de janeiro de 2018
Nas ruas desertas do meu sonho
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
Ninguém lá está, senão os mendigos.
Miséria carregada de tristeza e abandono,
Como fantasmas vivos
De mãos sujas e alma turva.
A rua é sua penúltima morada
Antes da morte definitiva.
— Se é que podemos afirmar que estão vivos.
A bebida os consome por dentro,
Mas é a droga que os enlouquece,
que os
cerra na sua loucura,
Onde não há fome ou frio.
Aceitam, assim, a viagem sem volta.
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
Dorme porque sua alma está entorpecida.
As contas para pagar,
os impostos
— muitos impostos,
O medo do desemprego,
a
violência,
Entorpecem a alma do meu país.
Ninguém olha para a janela ao lado.
Sequer abrem a janela do carro
Para ver o que se passa
com os
mendigos
— Que ninguém
quer ver.
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
E, enquanto dorme,
O dinheiro some — ou dizem que some.
Os risos daqueles que roubam
dos que
aceitam
tudo
em
silêncio,
Invade a noite.
Invade o dia.
Entra pelas estações e os anos.
Mas os jasmins continuam a florir.
E as damas-da-noite continuam a cheirar
Para adocicar o sono dos que
dormem.
Meu sonho é às vezes interrompido por gargalhadas.
Vejo na penumbra que os colarinhos
estão entreabertos.
As gravatas maldispostas — relaxadas.
Bocas que ruminam como porcos os seus fartos jantares
E exibem suas panças gordas
— como gordos
cachaços —
os reis da
pocilga!
Como são insaciáveis!
Como o dinheiro que lhes é entornado como lavagem
para consumirem
e
deitarem
e se
locupletarem,
jamais
é suficiente!
E depois desta orgia,
Colocam suas cabeças em seus travesseiros de pluma
macios,
altos,
como
sua arrogância
Para compensar o peso de suas consciências.
Nas ruas desertas do meu sonho,
São seus próprios demônios que os perseguem,
e nenhum
outro.
Não dormem sem sentir o medo que apavora
o da sombra das
grades,
da pobreza que
abominam ou ainda,
o do frio
punhal da traição.
Contam maços de dinheiro à noite.
Pacotes e pacotes de baiacus e de
onças
pintadas.
Animais em cativeiro.
Usam apelidos, falam baixo, arrumam esconderijos
Porque paredes têm ouvidos.
Seu melhor amigo é
também
seu
inimigo.
Nas ruas desertas do meu sonho, o gigante dorme.
E os mendigos cantam e dançam
Enquanto toda a gente dorme e sonha
Junto comigo
dias melhores.
Mas não há ação. Apenas respiramos
imóveis.
Todos dormem.
Dormem.
Frederico Ferreira
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Autoretrato
Os braços tremem. O coração treme.
Na hora da verdade, tudo é ímpeto.
Já não sou dentro de mim.
A página escrita é o reflexo do que sou.
Sou eu que estou aqui.
Sou desta tinta mesma que preenche espaços vazios.
Turbilhão de sentimentos canalizados em palavras.
É aqui que eu existo.
Frederico Ferreira
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Joana D'Arc
Das vozes que dos ventos sopram,
Das forças que da Terra brotam,
Campos de flores e perfumes,
Da treva que valoriza o lume,
Surge missão divina, de liberdade
A provar da Santa a lealdade.
Armadura de fé
Espada de confiança
Pôs-se logo de pé
Exercendo liderança.
Sem intenção de poder ou fama,
Fez da luta sua dedicação.
Fez-se mártir, Santa Joana
Iluminada por divina inspiração.
Sem temer o futuro ou destino,
Na fogueira foi queimada.
Com o fumo, sua Alma foi subindo,
Mas deixou sua semente plantada.
Qualquer bom propósito na vida é importante.
Pega tuas armas. Sê relevante,
Independentemente do que se tem de resultado,
As forças do bem estarão ao teu lado.
Eleva, portanto, o coração e o pensamento.
Faz de ti, da vida, um instrumento.
Frederico Ferreira.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Notre-Dame de Paris
Dos símbolos milenares, das formas seculares,
De sinos e criptas e torres e altares
És esplendor vivo. — Criação exuberante!
A apontar para o céu de estrelas cintilante.
És muro de pedra entalhada,
— Trabalho, paixão e dor —
Que do cinzel se fez arte revelada.
Minúcias e complexidades da Alma
A reverenciar o Criador e a Mãe do Salvador.
Vitrais que difundem Luz
Como espectros que nos acompanham.
Que fazem cultivar a Fé
Que brota nos pés da Cruz.
Joelhos que se curvam,
Corações que transbordam
Preces que alcançam as alturas
Como suspiros que sobem ao céu.
São olhares esperançosos
Que refletem a luz das velas.
São corações miúdos, como pequenas capelas
A entoar cânticos ao Senhor.
És a semente da Cidade Luz,
Marco zero da Luminosidade.
Fanal de almas que buscam a Verdade
A tatear, na treva da matéria,
Os passos abençoados de Jesus.
Frederico Ferreira
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Montanhas
Porque este fascínio incontrolável por estas
montanhas?
O que teriam elas a dizer-me?
Que mensagem, lembrança secular
Me prende à estas paredes de pedra?
Será a beleza que a Natureza encerra em si,
Formas suntuosas cobertas de exuberância?
Ou será mesmo o próprio mistério da Vida
Com seus picos e vales,
Sombras e luzes que se revelam aos meus olhos?
Guardo dentro de mim as minhas Serras.
Montanhas crivadas de esperança
A refletir luz
Nas sombras de meus pecados.
E fios d’água e cachoeiras
Que se dissolvem em orvalho
E fazem germinar flores de boas ações.
Dentro de mim há dias chuvosos e tristes
E que guardam em si a certeza de que tudo se
transforma.
Há noite, há lua e há beleza.
Pássaros cantam ofertando-me versos bucólicos
E fins de tarde de luz tênue
Que me deixam melancólico.
Oh Montanhas intermináveis!
Oh vastidão coberta de cores, vida e sonho!
O meu ver-te é tudo o que carrego já comigo.
És a força da Terra a apontar para o Infinito.
Frederico Ferreira
Poços de Caldas - 04.11.2017
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Pedras
Ao longo do caminho, o objeto imóvel.
Dir-se-ia uma pedra,
Mas não um obstáculo.
Minha vontade de ir adiante é mais forte do que ela.
Ao alcançá-la, transcendo ao outro lado e continuo.
Minha vontade de seguir, é a própria força em movê-la.
A pedra em si não tem culpa de nada.
Culpa teria eu em não seguir adiante,
Em fitar o imóvel como um ser absoluto,
Pensando ele cheio de si e vontade.
Eu não tenho medo de pedras.
Elas fazem mais vivo e intenso o meu caminho.
Longe de mim, elas parecem obstáculos.
Depois de mim, elas são passagem.
Frederico Ferreira
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