quarta-feira, 10 de abril de 2019

Renovação

De todas as horas, 
De todas as palavras, 
A que mais me toca agora é Renovação. 
Não há como deixar de perceber as pétalas 
Que secam, renovando-se. 
Não há como não celebrar a vida nova 
Que se espraia no vermelho vivo, 
No verde forte e ao mesmo tempo 
Suave das folhas que renascem. 
Basta apenas um novo dia, 
A brisa que sopra alimentando de vida. 
Oh! Como é necessário que esta mesma brisa 
Nos distancie do que é ruim, 
Das folhas velhas e gastas, 
Endurecidas pelo tempo, 
Rugosas e ásperas às vezes 
Como experiências caducas ou mal vividas, 
Como lembranças de holocaustos e de dores, 
Ainda que para trazer à vida perfume. 

É a força de viver que convida o que é ruim e velho 
A cair 
E a renovar-se em outro canto, 
Ainda que nada se perca 
Visto que a flor continue do velho renovado 
A se nutrir. 

Frederico Ferreira

domingo, 31 de março de 2019

Jardineiro de Sentimentos

Se quiserem dar-me um nome 
Chamem-me de jardineiro. 
Jardineiro de sentimentos. 
Eu rego com minhas lágrimas 
As plantas que cuido, 
Revolvo as terras do coração. 
Eu não guardo segredos sobre a minha arte. 
Sou ocupado das almas, 
E das dores, das esperanças e dos amores 
— plantas sagradas no jardim da Criação. 
Eu revolvo pétalas caídas, 
Galhos quebrados, 
Sentimentos amontoados de júbilo e emoção; 
Gravetos que se entrecruzam 
Como vidas que se alimentam e 
Desenham caminhos, como escolhas, 
Ao chão. 
Eu jardino momentos 
E faço eclodir sentimentos 
Através de perfumes suaves e plantas multicolores, 
Que são mistos de alegria, esperança e fé 
No coração. 

Frederico Ferreira

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Passadas

Diante de mim, a estrada imensa, 
O tempo infinito.
Eu, corredor nas transmigrações, de alma imortal.
Sou eu quem escolhe os caminhos. 

Regulo minhas passadas para chegar ao objetivo. 
É o ritmo dos sentimentos que imprime a força 
— Da vontade e do corpo — 
Para traspor os obstáculos. 
Não adianta fixar-me na dor, 
No arfar de cansaço ou no 
Silêncio, neste abandono 
De quem se distancia de tudo, 
Imerso em pensamentos 
A escutar apenas as próprias passadas 
E pouco observando ao redor, 
Mas com muita atenção em mim mesmo. 

Às vezes preciso de música 
Para impulsionar-me neste imenso deserto; 
Às vezes, simplesmente, a vontade de vencer. 
Vencer o corpo e a alma, 
Disciplinando-me. 
E convertendo vontade em distância, 
E superando em mim os obstáculos, 
Para cruzar, com êxito, 
A linha de chegada. 

Frederico Ferreira

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Limite

Fecho meus olhos. 
Quero estar longe destas paredes, 
E desta janela medíocre para o mundo: 
Da tela plana silenciosa, 
Inodora e insensível do computador. 

Meus olhos desejam ver Imensidão. 
Quero de novo sentir a maresia 
Invadindo meu peito. 
A areia, na sua rudeza doce, 
A envolver os meus pés. 
Atrás de mim quero ter a Serra do Mar. 
Parede enorme, no entanto, transponível. 
Com cores, densidades e bichos e 
Cachoeiras de água fria e 
Pedras, muitas pedras. 

Nada disso, porém, parece tão imenso, 
Tão intransponível quanto estas paredes brancas 
E esta outra janela do escritório que, todas as manhãs, 
Inunda meus olhos com a luz do Sol. 
Nesga de luz e pouco de mata de jardim 
Como um quadro vivo ao lado. 

Frederico Ferreira

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Renascimento


Não é a montanha que mata.
Montanha verde. Agora de lama e pedra
E de sangue ferroso que,
De coração parado, embora consciente, porém
Quase sem vida, estagnado
No seu sulco,
Apenas sangra.
E foi nessa hemorragia que
Se viu ruir
A pedra,
E lavar como a glória de quem se liberta
Da morte,
O renascer na vida dos outros. 

Não sobrou muita coisa!
Neste espetáculo hediondo de tentar
Reviver matando, e de
Fazer sofrer sofrendo,
Porque a vida é benção que se preserva e se
Mantém,
Quis a Natureza deixar a sua marca:
Onde havia ainda beleza para olhar,
Não sobrou nada mais que ganga
E nostalgia, e
Dor e reflexão,
E lágrimas para se poder chorar.

Frederico Ferreira

Em homenagem às vítimas de Brumadinho.



terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sobre flores e pássaros

Às vezes na vida, temos que deixar que as flores,
Elas mesmas, cuidem de si.
Embora estejam em nossos canteiros,
Elas não nos pertencem.
São sementes de esperança, beleza e
Perfume,
Que vencem sozinhas a rudeza do solo,
A violência das pragas,
O desgaste das intempéries.

Assim também é com os pássaros,
Flores libertas
Que, no lugar de perfume,
Entoam cantos, celebrando a liberdade.

Na vida, tudo tem a sua força,
Tudo tem a sua hora.
Nada de querer antecipar o desabrochar de botões;
Nada de querer ensaiar o abandono prematuro dos ninhos.
Porque assim como o perfume dorme na semente que eclode,
A liberdade ganha espaço nas asas que se abrem, cuidadosas,
Para o amanhã.

Frederico Ferreira

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Poema Triste

Este poema é para ser triste. 
Triste como um adeus. 
Doído como lágrimas que brotam tristes nos olhos 
E que tombam, perdidas e doídas, 
Como corpos que não vivem mais. 

Este poema é para servir como memória, 
Como flores que um dia embelezaram canteiros, 
Que perfumaram entardeceres, 
Enamoraram corações. 

Este poema é para celebrar cada pétala 
Que se desprende. 
Seca de vida. Amarela e leve 
Como a alma que se eleva, 
E que busca, na brisa da noite e 
Na renovação de tudo o que se transforma, 
A sua Eternidade. 

Frederico Ferreira 
Tulum, México

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Embarcação

Navegamos à sós, pequenos barcos levados inocentes pela corrente? 
Oh quanta coragem para vencer o infinito! 
O mar é a própria metáfora da imensidão do universo. 
Sopram os ventos, anunciam-se as tempestades, 
Como se estivéssemos prontos a sucumbir a qualquer instante, 
Perecíveis que somos. 
O Sol nos guia, como a própria força que nos une, 
Plantas e homens numa mesma direção: A Luz. 
A certeza do êxito, no entanto, não está fora. 
Está no barco 
Que repousa sobre a água, a enfrenta, transpondo barreiras. 
Para ir adiante, o capitão tem que ter confiança em sua embarcação, 
Em seu motor que, como o coração em seu peito, 
Bombeando sangue e força aos seus braços, 
Não pode também parar. 

Qual direção a seguir? Qual a rota 
Quando não se sabe ao certo onde se vai chegar? 
Seguir as estrelas? 
Olho para o céu, azul como um manto divino, 
Como um convite à paz para os corações cheios de perguntas, 
E vazios de respostas. 
Volto às correntes, 
Aos ventos que sopram, renovando o ar. 
Em minha embarcação pulsa a alma imortal, a coragem e a fé, 
A vontade de buscar, de atravessar o vazio. 
O vazio de respostas que, 
Quando a viagem termina, já as temos todas. 
Porque viver não é nada além de cruzar o mar desconhecido 
Vencendo intempéries, 
Suportando tormentas, 
Mas com a indelével certeza de novas enseadas, 
Praias tranquilas e terra firme 
E a certeza do dever cumprido. 

Frederico Ferreira

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Vamos falar do Amor!

Vamos falar do Amor!
Da beleza intrínseca da vida,
De beijos de mães e abraços intermináveis de quem
Quer bem.
Sim! Querer bem como a própria vida que
Entre flores e espinhos,
Ondas e calmarias,
Ventos, Sol e tempestade,
Ninhos se escondem
Protegendo filhotes.
Amor,
Ainda que ímpeto de cuidado
Sentimento irracional e instintivo,
É divino, incalculável,
Por vezes, impenetrável.
Em vias de percebê-lo, materializamos o Amor?
O divinizamos?
Quem sabe entre corpos, a duras penas, se revele?
Ou, mesmo, nos umbrais das Capelas!
Não importa! Qual seja,
Falemos do Amor e não da guerra interior.
Falemos de construção,
De edificação de consciências,
Do fortalecimento de laços.
Da busca da harmonia.

Falemos do Amor e seus matizes.
Espetáculo da vida em esplendor.
Que do silêncio que cala,
Do perfume que exala,
A beleza de uma flor,
Tudo se resume à uma mesma expressão:
É hausto divino, palavra pequena e poderosa,
que mesmo duro, às vezes
Como o espinho de uma rosa,
Protege, ensina, recupera.
Voltemos o olhar para a fera, o homem-fera que,
Como todos, caminha para a Luz.
É espinho, cerviz dura que nunca verga,
Que se ama muito e não enxerga
Que amar-se não é satisfazer-se.
É antes reconhecer-se digno de perdão.

Falemos, portanto, do Amor!
Haja mais amor em nossas vidas!
Cuidemos de nós mesmos
Ou de quem está à nossa volta.
Calemos em nós toda a revolta
À vida,
E busquemos mais sentir.
O Amor é semente que se planta
No coração de quem semeia.
É flor que nasce pequena
Depois se agiganta,
Embelezando o porvir.

Frederico Ferreira

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Palavra

A palavra doce transforma.
Funciona como mãos carinhosas que
Revolvem a terra seca,
Cascalhos do coração,
Tristezas petrificadas pela dor.

Nada como fazer correr a água do sentimento
Em nossas raízes.
Alimentar-se do amor que a tudo serve e
Tudo muda
E que nos faz confiar no amanhecer:
Brisa suave de vida e luz,
Portador de esperanças que
Traz renovação.

A palavra doce transforma,
Mais que isso o sorriso e o abraço
Sintonia de almas que se sentem e
Se tocam
E se nutrem e pacificam.
Abrem horizontes.
Fortalecem raízes. 

Frederico Ferreira