segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sol

O pôr do Sol lembra-me as tardes
Em que meu olhar contempla o infinito:
A paisagem quase interminável do horizonte,
Limitada pelo astro imenso
A marcar dias, noites, eternidades.
Meu coração brilha junto com Ele
E não sinto medo algum do porvir.

O Sol dá-me a certeza de que não estou sozinho.
A minha Grande Estrela foi criada por um Ser Divino.
Não há, portanto, o que temer.
Seus raios aquecem meu coração
Como para quem brilha em si uma nova esperança.
Sua luz, dá-me força para vencer qualquer coisa.
— O Sol é senhor do tempo.

Quando estou longe d’Ele,
Quando o crepúsculo bate sobre meus olhos,
Para mim, não é a noite que se inicia,
É um novo amanhecer que tarda.

A treva não me incomoda,
Pois a Fé ilumina meus passos.
Eu sei que ELE É,
Que ELE ESTÁ.
E assim, onipresente, me acompanha.

Frederico Ferreira

sábado, 20 de abril de 2019

Rogativa ao Pantanal

Minha alma é pequena diante do infinito, 
Da planície infinita. 
Brilham meus olhos no espelho d’água, 
Sopra meu fôlego o sopro de vida. 
Tudo está aqui para mostrar-me o quanto sou pequeno, 
O quanto nada valho. 
A criação, na sua ordem, prescinde do homem. 
Não é nossa vontade que faz reger a vida, 
Ainda que com máquinas, desejo 
E força 
Mudemos o mundo. 
Tudo estará e os rios continuarão 
Caudalosos e intensos, 
As árvores frondosas e as matas 
Densas. 
Agora eu quero pertencer a tudo isto. 
E deixar minha vida fluir, como num rio. 
E deixar a luz refletir sobre mim. 
Sou melhor quando meu ânimo não se turva. 
Esta corrente me leva ao longe 
Como o fulgor de pensamentos elevados. 
Já não me pertenço quando me deixo fluir. 
Sou força constante a renovar vida e ideias. 
Sou criação e ímpeto e 
Sedimento e ilha 
E folha que 
Navega. 
Oh Natureza! 
Oh! beleza da vida 
Revelada por Deus 
Para relembrarmos a nossa essência! 
Dá-me força para continuar a crescer e 
A vencer. 
Dá-me tua seiva! 
E faz-me transmutar na renovação de tudo o que é nobre. 
Na força viva do verso 
E na corrente que vence obstáculos e passa 
E segue, 
Sempre adiante. 

Frederico Ferreira
Poconé, MT

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Renovação

De todas as horas, 
De todas as palavras, 
A que mais me toca agora é Renovação. 
Não há como deixar de perceber as pétalas 
Que secam, renovando-se. 
Não há como não celebrar a vida nova 
Que se espraia no vermelho vivo, 
No verde forte e ao mesmo tempo 
Suave das folhas que renascem. 
Basta apenas um novo dia, 
A brisa que sopra alimentando de vida. 
Oh! Como é necessário que esta mesma brisa 
Nos distancie do que é ruim, 
Das folhas velhas e gastas, 
Endurecidas pelo tempo, 
Rugosas e ásperas às vezes 
Como experiências caducas ou mal vividas, 
Como lembranças de holocaustos e de dores, 
Ainda que para trazer à vida perfume. 

É a força de viver que convida o que é ruim e velho 
A cair 
E a renovar-se em outro canto, 
Ainda que nada se perca 
Visto que a flor continue do velho renovado 
A se nutrir. 

Frederico Ferreira

domingo, 31 de março de 2019

Jardineiro de Sentimentos

Se quiserem dar-me um nome 
Chamem-me de jardineiro. 
Jardineiro de sentimentos. 
Eu rego com minhas lágrimas 
As plantas que cuido, 
Revolvo as terras do coração. 
Eu não guardo segredos sobre a minha arte. 
Sou ocupado das almas, 
E das dores, das esperanças e dos amores 
— plantas sagradas no jardim da Criação. 
Eu revolvo pétalas caídas, 
Galhos quebrados, 
Sentimentos amontoados de júbilo e emoção; 
Gravetos que se entrecruzam 
Como vidas que se alimentam e 
Desenham caminhos, como escolhas, 
Ao chão. 
Eu jardino momentos 
E faço eclodir sentimentos 
Através de perfumes suaves e plantas multicolores, 
Que são mistos de alegria, esperança e fé 
No coração. 

Frederico Ferreira

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Passadas

Diante de mim, a estrada imensa, 
O tempo infinito.
Eu, corredor nas transmigrações, de alma imortal.
Sou eu quem escolhe os caminhos. 

Regulo minhas passadas para chegar ao objetivo. 
É o ritmo dos sentimentos que imprime a força 
— Da vontade e do corpo — 
Para traspor os obstáculos. 
Não adianta fixar-me na dor, 
No arfar de cansaço ou no 
Silêncio, neste abandono 
De quem se distancia de tudo, 
Imerso em pensamentos 
A escutar apenas as próprias passadas 
E pouco observando ao redor, 
Mas com muita atenção em mim mesmo. 

Às vezes preciso de música 
Para impulsionar-me neste imenso deserto; 
Às vezes, simplesmente, a vontade de vencer. 
Vencer o corpo e a alma, 
Disciplinando-me. 
E convertendo vontade em distância, 
E superando em mim os obstáculos, 
Para cruzar, com êxito, 
A linha de chegada. 

Frederico Ferreira

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Limite

Fecho meus olhos. 
Quero estar longe destas paredes, 
E desta janela medíocre para o mundo: 
Da tela plana silenciosa, 
Inodora e insensível do computador. 

Meus olhos desejam ver Imensidão. 
Quero de novo sentir a maresia 
Invadindo meu peito. 
A areia, na sua rudeza doce, 
A envolver os meus pés. 
Atrás de mim quero ter a Serra do Mar. 
Parede enorme, no entanto, transponível. 
Com cores, densidades e bichos e 
Cachoeiras de água fria e 
Pedras, muitas pedras. 

Nada disso, porém, parece tão imenso, 
Tão intransponível quanto estas paredes brancas 
E esta outra janela do escritório que, todas as manhãs, 
Inunda meus olhos com a luz do Sol. 
Nesga de luz e pouco de mata de jardim 
Como um quadro vivo ao lado. 

Frederico Ferreira

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Renascimento


Não é a montanha que mata.
Montanha verde. Agora de lama e pedra
E de sangue ferroso que,
De coração parado, embora consciente, porém
Quase sem vida, estagnado
No seu sulco,
Apenas sangra.
E foi nessa hemorragia que
Se viu ruir
A pedra,
E lavar como a glória de quem se liberta
Da morte,
O renascer na vida dos outros. 

Não sobrou muita coisa!
Neste espetáculo hediondo de tentar
Reviver matando, e de
Fazer sofrer sofrendo,
Porque a vida é benção que se preserva e se
Mantém,
Quis a Natureza deixar a sua marca:
Onde havia ainda beleza para olhar,
Não sobrou nada mais que ganga
E nostalgia, e
Dor e reflexão,
E lágrimas para se poder chorar.

Frederico Ferreira

Em homenagem às vítimas de Brumadinho.



terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sobre flores e pássaros

Às vezes na vida, temos que deixar que as flores,
Elas mesmas, cuidem de si.
Embora estejam em nossos canteiros,
Elas não nos pertencem.
São sementes de esperança, beleza e
Perfume,
Que vencem sozinhas a rudeza do solo,
A violência das pragas,
O desgaste das intempéries.

Assim também é com os pássaros,
Flores libertas
Que, no lugar de perfume,
Entoam cantos, celebrando a liberdade.

Na vida, tudo tem a sua força,
Tudo tem a sua hora.
Nada de querer antecipar o desabrochar de botões;
Nada de querer ensaiar o abandono prematuro dos ninhos.
Porque assim como o perfume dorme na semente que eclode,
A liberdade ganha espaço nas asas que se abrem, cuidadosas,
Para o amanhã.

Frederico Ferreira

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Poema Triste

Este poema é para ser triste. 
Triste como um adeus. 
Doído como lágrimas que brotam tristes nos olhos 
E que tombam, perdidas e doídas, 
Como corpos que não vivem mais. 

Este poema é para servir como memória, 
Como flores que um dia embelezaram canteiros, 
Que perfumaram entardeceres, 
Enamoraram corações. 

Este poema é para celebrar cada pétala 
Que se desprende. 
Seca de vida. Amarela e leve 
Como a alma que se eleva, 
E que busca, na brisa da noite e 
Na renovação de tudo o que se transforma, 
A sua Eternidade. 

Frederico Ferreira 
Tulum, México

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Embarcação

Navegamos à sós, pequenos barcos levados inocentes pela corrente? 
Oh quanta coragem para vencer o infinito! 
O mar é a própria metáfora da imensidão do universo. 
Sopram os ventos, anunciam-se as tempestades, 
Como se estivéssemos prontos a sucumbir a qualquer instante, 
Perecíveis que somos. 
O Sol nos guia, como a própria força que nos une, 
Plantas e homens numa mesma direção: A Luz. 
A certeza do êxito, no entanto, não está fora. 
Está no barco 
Que repousa sobre a água, a enfrenta, transpondo barreiras. 
Para ir adiante, o capitão tem que ter confiança em sua embarcação, 
Em seu motor que, como o coração em seu peito, 
Bombeando sangue e força aos seus braços, 
Não pode também parar. 

Qual direção a seguir? Qual a rota 
Quando não se sabe ao certo onde se vai chegar? 
Seguir as estrelas? 
Olho para o céu, azul como um manto divino, 
Como um convite à paz para os corações cheios de perguntas, 
E vazios de respostas. 
Volto às correntes, 
Aos ventos que sopram, renovando o ar. 
Em minha embarcação pulsa a alma imortal, a coragem e a fé, 
A vontade de buscar, de atravessar o vazio. 
O vazio de respostas que, 
Quando a viagem termina, já as temos todas. 
Porque viver não é nada além de cruzar o mar desconhecido 
Vencendo intempéries, 
Suportando tormentas, 
Mas com a indelével certeza de novas enseadas, 
Praias tranquilas e terra firme 
E a certeza do dever cumprido. 

Frederico Ferreira